20 de maio de 2026
Poesia
O contrário da praça é você descalço em casa, tá sabendo né Seu Zé
Os túneis das cidades são uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo. Eles organizam o fluxo, mas também o escondem. Entrar num túnel é aceitar uma suspensão breve do mundo visível — como se a cidade precisasse, por alguns segundos, recolher o próprio rosto. O túnel é o intervalo, o trecho onde não há paisagem, apenas o ambiente mínimo para atravessar.
Mas atravessar nunca é apenas atravessar. Em cidades que se habituaram a esconder seus excessos, os túneis funcionam como órgãos internos: vitais, mas invisíveis. Há neles uma pedagogia do movimento, uma lição de como seguir adiante sem testemunhar. A luz artificial repete uma cadência neutra que impede qualquer ilusão de história.
Ainda assim, há sempre algo que escapa.¹ Talvez seja o som — um arrasto metálico que se prolonga e parece vibrar dentro do corpo. Ou a sensação de que o tempo se contrai levemente, como se o túnel enquadrasse o instante num ritmo outro: sem imagens laterais, sem distração. A cidade continua, mas você não a acompanha; você a corta.
Nos túneis, percebo como a arquitetura pode induzir uma espécie de despersonalização. É o contrário da praça, onde o corpo se reconhece como parte de um todo. No túnel, somos momentaneamente intercambiáveis: veículos, sombras, deslocamentos. Não é o sujeito que importa, mas a continuidade. A ética da fluidez substitui a ética da presença.
E no entanto, há também o fascínio — essa espécie de atenção desviada. O túnel oferece um tipo de poesia involuntária: limita, para que tudo mais se intensifique. Cada clarão, cada sinal luminoso, cada curva se torna uma pequena narrativa. Marília Garcia diria que o túnel é um verso estendido, uma frase longa que não sabe onde respira.